O ‘dragão’ já era um símbolo do Porto antes de ser adoptado pelo FCP

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antigo-brasao-de-armas-da-cidadeO dragão é um símbolo da cidade do Porto muito antes de ser associado ao Futebol Clube do Porto (FCP), cujo emblema reproduz as armas da cidade tal como foram promulgadas em janeiro de 1837, defende o investigador Joel Cleto.

Muitas foram as alterações deste marco representativo da cidade, muito embora seja de apontar que a sua estrutura básica se manteve ao longo de diferentes reinadosapenas tendo sido acrescentado pormenores artísticos e caracterizadores desta tão bela cidade situada nas margens do Douro que carinhosamente molha os pés dos portuenses.

O original brasão da Invicta representava «uma cidade de prata, em campo azul sobre o mar de ondas verdes e douradas».

Com o Foral Manuelino à cidade do Porto que data de 20 de Junho de 1517, o brasão das Armas da Cidade do Porto sofre a primeira alteração, ao qual foi incluído ao imagem de Nossa Senhora de Vandoma, com o menino Jesus nos braços sobre um fundo azul e entre duas torres.

Em 1813 e aquando da Segunda modificação, a imagem de Nossa Senhora aparece ainda ladeada por duas torres encimadas por um lado por um braço e por outro por uma bandeira.

Em 1834 no reinado de D Pedro IV ao brasão foi introduzido uma inscrição «Antiga, mui Nobre sempre Leal e Invicta cidade». Este brasão era então constituído por um escudo esquartelado, cercado pelo colar da Ordem da Torre e Espada, tendo nos primeiros e quartos quartéis as armas de Portugal e nos segundos e terceiros as antigas armas da cidade. Encimava o escudo um dragão verde assente numa coroa ducal, sobressaía uma longa faixa com a legenda Invicta.

Após o Cerco do Porto e a morte de D. Pedro IV por um decreto redigido por Almeida Garrett e promulgado por Passos Manuel e D. Maria II de 14 de Janeiro de 1837, são alteradas as Armas do Porto:

Presidente e vereadores da camara municipal da antiga, muito nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto: Eu a rainha vos envio muito saudar, e por vós a todos os cidadãos da vossa heroica cidade, como aquelles que sobre todos muito amo.

Amigos: porquanto meu augusto pae, de saudosa memoria, com o precioso legado do seu coração deixou satisfeita a divida em que ambos estavamos a uma cidade que é o generoso berço d'esta monarchia, e que havendo dado o nome a Portugal, tantas vezes o tem rehabilitado à face do mundo, e restituido á primitiva gloria e explendor da sua origem; e não me sendo possível juntar nada áquelle grande testimunho com o que o libertador de Portugal, assim firmou a memoria do seu agradecimento, como a dos serviços da mais illustre das cidades portuguezas, a qual já pela admiração das gentes é justamente appellidada eterna; quis eu, todavia, como rainha de Portugal e como filha do Sr. D. Pedro IV, consignar pelo modo mais authentico e solemne, e dar toda a perpectuidade que em coisas humanas cabe, áquelle inapreciavel documento da gratidão real; e para este fim, houve por bem, em decreto d'esta data, determinar o seguinte:

1º - Para memoria de que a cidade do Porto bem mereceu da patria e do principe, serão as suas armas um escudo aquartellado, tendo no primeiro quartel as armas reaes de Portugal; no segundo as antigas armas da mesma cidade, e assim os contrarios; e sobretudo, por honra, e em recordação do legado precioso que de meu augusto pae recebeu, um escudete vermelho com um coração de oiro: coroa ducal; e por timbre um dragão negro das antigas armas dos senhores reis d'estes reinos; com a tenção em letras de oiro sobre fita azul - Invicta: - e em roda do escudo a insignia e collar da gran-cruz da antiga e muito nobre ordem da Torre e Espada, do valor, lealdade e merito.

2º - Aos títulos de antiga, muito nobre e leal se acrescentará o de Invicta: - e assim será designada: - A antiga, muito nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto.

3º - O segundo filho ou filha dos senhores d'estes reinos tomará sempre o título de duque ou duqueza do Porto.

4º - Fica por este modo ampliado o disposto no decreto de 4 de Abril de 1833 e carta regia de 13 de Maio de 1813.

O que me pareceu participar-vos para vossa intelligencia e satisfação.

Estas armas do Porto desenhadas por Almeida Garrett, reflectem o contacto com o Romantismo inglês, onde Garrett se exila, e daí a procura de alguns elementos medievais. E apesar das críticas de Armando Mattos, de pormenores que considera errados do ponto de vista da heráldica, e daí a sua pretensão de criar um novo brasão para o Porto, vão durar mais de cem anos e identificar-se com o espírito liberal da cidade.

No centro sobre o ponto onde se unem os quatro quartéis, um coração, que representa o precioso legado que D. Pedro IV (pai de D. Maria II) deixou à cidade como forma de reconhecimento pela coragem e lealdade dos seus habitantes – segundo a sua vontade, o seu coração encontra-se guardado numa urna de prata na Igreja da Lapa.

1940 – retirada a coroa ducal e o dragão

Em 1940, ano de «glorificação» do regime (com a Concordata, a Exposição do Mundo Português) Salazar manda redesenhar as armas e brasões de todos os concelhos e freguesias do País. Em 25 de Abril de 1940, é publicada a Portaria 9513, assinada pelo Ministro do Interior, Mário Pais de Sousa, determinava : …atendendo ao que foi solicitado pela Câmara Municipal do Porto, e tendo em consideração o parecer da comissão de heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses: manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Interior, aprovar, nos termos do § único do artigo 13º do Código Administrativo, a constituição heráldica das armas, selo e bandeira daquele Município que é a seguinte:

Brasão: de azul com um castelo de ouro, constituído por um muro ameado e flanqueado por duas torres ameadas, aberto e iluminado de vermelho, assente num mar de cinco faixas ondeadas, sendo três de prata e duas de verde. Sobre a porta, e assente numa mísula de ouro, a imagem da Virgem com diadema na cabeça segurando o manto, tendo o Menino Jesus ao colo, vestidos de vermelho com manto azul, acompanhados lateral e superiormente por um resplendor que se apoia nas ameias do muro. Em chefe, dois escudos de Portugal antigo. Coroa mural de prata de cinco torres e colar da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Listel branco com os dizeres «Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto» a negro.

As Armas da Cidade do Porto ao longo do tempo

o ‘dragão’ está representado em vários monumentos

No livro ‘Lendas do Porto’, Joel Cleto dá conta de que na cidade o «dragão» está representado em vários monumentos, como numa das faces da torre da Casa dos 24, ao lado da Catedral, um edifício contemporâneo da autoria do arquitecto Fernando Távora. Em fontanários, como o que se encontra nos jardins do Barão de Nova Sintra, ou na estátua de D. Pedro IV na avenida dos Aliados.

o emblema do Futebol Clube do Porto

Deste modo, o emblema do ‘Futebol Clube do Porto’, escolhido em 1922 por sugestão do jogador Augusto Baptista Ferreira, reproduz o que representou a cidade até à reforma heráldica de 1940 que lhe retirou a coroa ducal e o dragão.

O livro de Joel Neto regista 21 lendas sobre a Invicta e revela o que nelas há de verdade e imaginação popular que à força de tanto ser repetido se julga verdadeiro, como as madeiras da casa de chá de Leça serem de navios antigos ou o caso da sepultura do abade Moura, conhecido como o «Padre Santo» da Foz, ou São Pantaleão que foi durante mais de cinco séculos o padroeiro da cidade, só ‘substituído’ em 1981 por Nossa Senhora de Vandoma.

Joel Cleto, 47 anos, é arqueólogo e colabora com a televisão Porto Canal num programa sobre História e Património. Desde 1986 é colaborador da revista ‘O Tripeiro‘.

E você este símbolo do Porto? Comente!

Um abraço e até já!

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Author: admin

Quando escrevo aqui é porque estou desocupado. Então sou um desocupado falando para quem nao tem o que fazer. Mas também "Sou feliz só рor preguiça" A infelicidade dá uma trabalheira danada... Obrigado, pela vossa paciência...

2 Comments

  1. Vim parar a este artigo atraída pela minha paixão pelo que se refere ao Porto. No entanto foi Camões quem me trouxe atavés de uma pesquisa no Google. Não sou da área informática, mas da área da comunicação e precisei de dados para um trabalho que estou a desenvolver. Obrigada pelos seus artigos interessantes.

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