Vasco Graça Moura, escritor e político português

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vasco-graca-mouraVasco Graça Moura nasceu a 3 de Janeiro de 1942 na Foz do Douro, Porto, é um escritor e político português.

Personagem polifacetada da vida cultural portuguesa: Poeta, romancista, ensaísta, tradutor, foi secretário de Estado de dois Governos provisórios, desempenhou funções directivas na RTP, na Imprensa Nacional e na Comissão para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, e deputado ao Parlamento Europeu.

Para lá da poesia e da prosa, é autor de numerosos ensaios, alguns deles premiados, e de excelentes traduções literárias. Recebeu diversos prémios nacionais e internacionais. Tem muitas das suas obras traduzidas para italiano, francês, alemão, sueco e espanhol. Atualmente Vasco Graça Moura é presidente do Conselho de Administração da Fundação Centro Cultural de Belém (FCCB).

Vários poemas seus têm sido interpretados por nomes como Mariza, Carlos do Carmo e Cristina Branco, entre outros.

Biografia de Vasco Graça Moura

Vasco Navarro da Graça Moura nasceu na Foz do Douro (Porto), Portugal, em 1942. Formou-se pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, em 1966. Depois de ter exercido advocacia, Vasco Graça Moura desempenhou vários cargos públicos:

foi membro de dois Governos Provisórios em 1975, diretor do Primeiro Canal da RTP (1978), administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda (1979-1989), comissário-geral para as comemorações dos Descobrimentos Portugueses (1989-1995). A partir de 1996, dirigiu o Serviço de Bibliotecas e Apoio à Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian.

Vasco Graça Moura é colaborador de jornais, revistas e de canais de televisão. Tem muitas das suas obras traduzidas para italiano, francês, alemão, sueco e espanhol. É autor de numerosos ensaios, alguns deles premiados, e de excelentes traduções literárias.

Em 1999 Vasco Graça Moura foi eleito deputado ao Parlamento Europeu. Já publicou mais de 60 títulos, tendo numerosa colaboração dispersa em jornais e revistas.

Vasco Graça Moura foi distinguido com vários prêmios, entre os quais o Prêmio Pessoa (1995), o Prêmio de Poesia do PEN Clube (1997) e o Grande Prêmio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores.(1999). Em 1997 foi-lhe atribuída a Medalha de Ouro da Cidade de Florença pelas suas traduções de Dante. Em 2004, ganha a Coroa de Ouro do Festival de Poesia de Struga (Macedônia), sendo o primeiro poeta português a ser distinguido com este galardão. Em 2007, recebeu o Prémio Max Jacob para Poesia Estrangeira. Em 2008, o Prémio Tradução do Ministério da Cultura italiano pelas traduções de Dante e de Petrarca.

Vasco Graça Moura é membro efetivo da Académie Européenne de Poésie (Luxemburgo). É presidente do conselho de administração da Fundação Centro Cultural de Belém (FCCB), tendo sido nomeado em 2012.

Poemas de Vasco Graça Moura

quis-nos aos dois enlaçados
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco

nem o cheiro a maresia
a rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés

a vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio

sem perdão e sem disfarce,
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada,
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada

por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco,
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero,
sem saber bem o que busco.

Vasco Graça Moura, in 'Antologia dos Sessenta Anos'

vejo-me ao espelho: a cara
severa dos sessenta,
alguns cabelos brancos,
os óculos por vezes
já mais embaciados.

sobrancelhas espessas,
nariz nem muito ou pouco,
sinal na face esquerda,
golpe breve no queixo
(andanças da gilette).

ia a passar fumando
mais uma cigarrilha
medindo em tempo e cinza
coisas atrás de mim.
que coisas? tantas coisas,

palavras e objectos,
sentimentos, paisagens.
também pessoas, claro,
e desfocagens, tudo
o que assim se mistUra

e se entrevê no espelho,
tingindo as suas águas
de um dúbio maneirismo
a que hoje cedo. e fico
feito de tinta e feio.

quem amo o que é que pode
fazer deste retrato?
nem sabê-lo de cor,
nem tê-lo encaixilhado,
nem guardá-lo num livro,

nem rasgá-lo ou queimá-lo,
mas pode pôr-se ao lado
e ter prazer ou pena
por nos achar parecidos
ou não achar. quem amo

não fica desenhado,
fica dentro de mim
e é quando mais me apago
e deixo de me ver
e apenas me confundo,

amador transformado
na própria coisa amada
por muito imaginar.
assim nem john ashberry,
nem o parmegianino,

nem espelho convexo,
nem mesmo auto-retrato.
só uma sombra que é
na sombra de quem amo
provavelmente a minha.

quem amo tem cabelos
castanhos e castanhos
os olhos, o nariz
direito, a boca doce.
em mais ninguém conheço

tal porte do pescoço
nem tão esguias mãos
com aro de safira,
nem tanta luz tão húmida
que sai do seu olhar,

nem riso tão contente,
contido e comovente,
nem tão discretos gestos,
nem corpo tão macio
quem amo tem feições

de uma beleza grave
e música na alma
flutua nas volutas
de um madrigal antigo
em ondas de ternura.

é quando eu sinto a musa
pousando no meu ombro
sua cabeça, assim
me enredo horas a fio
e fico a magicar.

Vasco Graça Moura, in 'Auto-retrato com a musa'

não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tal degradação tão mais feliz
que o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de haver milhões que te uivam triunfantes
na raiva e na oração, no amor, no grito
de desespero, mas foi noutro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste, eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.

Vasco Graça Moura, in 'Antologia dos Sessenta Anos'

Tal como pedes eu trato
Dos nossos tristes assuntos
Já rasguei o teu retrato
E o outro em que estávamos juntos.

E o anel que tu me deste
Fui deitá-lo fora ao mar,
O vento soprava agreste
E não havia luar.

Há-de ficar-te a lembrança
Da nossa vida passada,
Eu, perdida a esperança,
Fico sem nada, sem nada.

Fica tu com as mentiras
Que te dizem estou bem
E outras mais que tu prefiras,
Que não as digo a mais ninguém.

Fico eu com as verdades
Tão duras, sem exagero,
E angústias e ansiedades
E agonia e despero,

Fico eu com o vazio
Da negra noite sem fim,
Nem sei, quem sou, tenho frio,
Estou comigo e sem mim

Não me conheço ao espelho :
Serei eu? Não serei eu?
Já deixou de ser vermelho
Um coração que bateu.

E assim eu me despedaço,
Sem salvação nem socorro :
Se não sou eu, me desgraço,
Se sou eu , sinto que morro.

Vasco Graça Moura, in 'os nossos tristes assuntos'

Obras de Vasco Graça Moura publicadas

Poesia:
Modo Mudando (1963); O Mês de Dezembro e Outros Poemas (1976); A Sombra das Figuras (1985); Sonetos Familiares (1994); Uma Carta no Inverno (1997); Testamento de; VGM (2001); Antologia dos Sessenta Anos (2002); Os nossos tristes assuntos (2006); Discursos Vários Poéticos (2013)

Ensaio:
Luís de Camões: Alguns Desafios (1980); Camões e a Divina Proporção (1985); Sobre Camões, Gândavo e Outras Personagens (2000)

Romance:
Quatro Últimas Canções (1987); A Morte de Ninguém (1998); Meu Amor, Era de Noite (2001)

Diário e Crónica:
Circunstâncias Vividas (1995);Contra Bernardo Soares e Outras Observações (1999)

Outras páginas sobre Vasco Graça Moura

Author: victei

Vitor Teixeira desde muito novo tornou-se autodidata neste mundo. Autor do thegoodarticle.com, onde têm vindo a aplicar novas analogias e perspectivas sobre redes, marketing, mídia social e geração de tráfego, para assim torná-lo mais fácil de entender. Inscreva-se em seu boletim para obter acesso a seus artigos, dicas e atualizações via e-mail.

2 Comments

  1. quero saber a síntese do poema “os nossos tristes assuntos”

    • Olá, julia castro!

      Não serei o mais indicado para lhe responder, mas mesmo assim vou escrever a minha analise. Todavia, pode não corresponder ao que será o correto!

      Penso que o poema foi escrito para caracterizar um homem, sobre o que sente e pensa, depois de um pedido lhe ter sido feito. Nele a razão e a emoção são mentiras porque não se conjugam. Fica o que ele sente e pensa, no entanto, fica a ideia que já não sabe quem será. O sujeito poético procura realçar também o que fica como lembrança de cada momento vivido antes do pedido.

      Espero ter ajudado…

      Nota: O poema foi adicionado ao artigo…

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